Aposta na floresta nativa é estratégica para a prevenção de incêndios

A Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC) e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) estão a dar os primeiros passos para a criação de um polo de treino em restauro florestal, com o objetivo de alterar o paradigma da prevenção de incêndios em Portugal, noticia o Diário de Coimbra.

A iniciativa pretende transformar a mata de 22 hectares do campus da ESAC num verdadeiro “laboratório vivo”, onde equipas de sapadores florestais poderão receber formação especializada, apostando na recuperação da floresta nativa de folhosas como estratégia de mitigação do risco de incêndio.

Da limpeza total à criação de ecossistemas mais maduros

Segundo o docente da ESAC Joaquim Sande Silva, a atual estratégia de prevenção assenta, em grande parte, na remoção total da vegetação, especialmente nas faixas de gestão de combustível. “O critério, normalmente, é limpar tudo”, refere, sublinhando que a vegetação e os detritos no solo fazem parte de um ecossistema natural.

A proposta da ESAC passa por um modelo alternativo, centrado na sucessão ecológica e na criação de ecossistemas mais maduros. “Não vamos limpar, vamos tentar avançar na sucessão ecológica, criando sombra que ajuda a controlar o crescimento da vegetação mais inflamável”, explica o docente, citado pelo Diário de Coimbra.

Recuperar a floresta que existia há dois mil anos

O projeto prevê a restauração da antiga floresta de folhosas, hoje muito reduzida, após décadas de desaparecimento de áreas de pinhal e da ocupação massiva por espécies exóticas como o eucalipto e a acácia.

“Existem poucas manchas de vegetação nativa da floresta que dominava esta área na época da ocupação romana. Temos de recuar cerca de dois mil anos para a encontrar”, explica Joaquim Sande Silva, acrescentando que esta aposta constitui também uma estratégia eficaz de prevenção de incêndios.

Folhosas ajudam a travar o fogo

Vários estudos científicos demonstram que as florestas de folhosas reduzem a intensidade e o comportamento dos incêndios, criando ambientes com temperaturas mais baixas, maior humidade e menor velocidade do vento.

O docente recorda o incêndio ocorrido no verão passado numa Mata em Arganil, onde o fogo perdeu intensidade ao entrar numa área dominada por espécies nativas, muito devido à sombra proporcionada pelas árvores de folha larga.

Formação de sapadores no centro do projeto

Em novembro passado, a ESAC e o ICNF organizaram uma jornada técnica com uma forte componente prática, envolvendo técnicos e operacionais do ICNF e equipas de sapadores florestais.

Segundo o Diário de Coimbra, esta iniciativa pretendeu também lançar as bases para a criação do polo de treino, permitindo que a mata da Agrária seja intervencionada no âmbito do serviço público prestado pelos sapadores, ao mesmo tempo que a escola disponibiliza formação especializada.

“Laboratório vivo” ao serviço do país

O projeto assenta num modelo de benefício mútuo: o ICNF beneficia de uma área para intervenção e treino, a escola afirma-se como referência na área do restauro florestal e o país ganha uma estratégia mais sustentável de prevenção de incêndios.

A mata do campus da ESAC será utilizada como área de demonstração e formação, permitindo capacitar técnicos licenciados e sapadores florestais, muitos dos quais carecem de formação específica, nomeadamente em botânica e identificação de espécies.

Estratégia atual considerada insustentável

Joaquim Sande Silva considera que a atual estratégia nacional de prevenção de incêndios é “muito insustentável”, alertando que o país gasta milhões todos os anos em ações de limpeza com efeitos temporários.

Além disso, sublinha que estas intervenções abrem caminho à proliferação de espécies invasoras, enquanto o restauro florestal contribui simultaneamente para a prevenção de incêndios, conservação da biodiversidade e proteção do património natural.

Comparar custos a longo prazo

Um estudo a realizar pelo Instituto Superior de Contabilidade e Administração irá comparar os custos da limpeza periódica da vegetação com os de uma estratégia de restauro florestal ao longo de 20 anos.

Embora os resultados ainda não estejam concluídos, o docente acredita que o restauro será mais económico a médio e longo prazo, apesar de exigir uma visão estratégica e paciência, qualidades que nem sempre se coadunam com o imediatismo da decisão política.