Mistura de sobreiro e pinheiro-manso reduz danos de insetos em florestas mediterrânicas

Um estudo realizado no sul de Portugal revelou que a mistura de espécies arbóreas pode reduzir significativamente os danos causados por insetos herbívoros em florestas mediterrânicas. O trabalho mostrou que o sobreiro (Quercus suber) apresenta 52% menos herbivoria quando cresce em povoamentos mistos com pinheiro-manso (Pinus pinea), em comparação com áreas de sobreiro puro.

O trabalho foi conduzido em sete áreas florestais típicas do sistema montado, um dos ecossistemas mais emblemáticos da Península Ibérica, conhecido pela sua elevada biodiversidade e importância económica, especialmente pela produção de cortiça e de pinhão. Os investigadores analisaram folhas de sobreiro, características das árvores e da vegetação do sub-coberto e também a atividade de predadores naturais dos insetos.

Segundo os resultados, embora a taxa de predação por inimigos naturais não tenha variado entre povoamentos puros e mistos, a redução da herbivoria esteve associada a mudanças nas características das folhas, como a área foliar específica e a proporção carbono/azoto. Esses fatores indicam que os chamados mecanismos “bottom-up”, relacionados com a qualidade e resistência da planta desempenham, nesse contexto, um papel mais importante do que o controle por predadores.

“O aumento da diversidade de árvores pode tornar o ambiente menos favorável para os insetos herbívoros, seja dificultando a localização do hospedeiro, seja alterando o valor nutricional das folhas”, explicam os autores. O estudo destaca que árvores em povoamentos mistos apresentam maior variabilidade de características foliares, o que pode reduzir a eficiência alimentar dos insetos.

Outro ponto relevante é que as áreas analisadas eram, em sua maioria, povoamentos adultos, com mais de 50 anos, baixa densidade de árvores e gestão tradicional, o que reforça a aplicabilidade dos resultados à realidade dos proprietários florestais.

Considerando o avanço das mudanças climáticas, o aumento de eventos extremos como secas e incêndios e a pressão crescente de pragas, os autores defendem que a mistura de espécies arbóreas pode ser uma estratégia eficaz para aumentar a resiliência das florestas mediterrânicas. Ao integrar a produção de cortiça e pinhão, para além dos benefícios ecológicos, a combinação de sobreiro e pinheiro-manso pode também trazer vantagens económicas.

Finalmente, o estudo reforça a importância da gestão florestal diversificada como ferramenta para conservar a biodiversidade, reduzir perdas causadas por pragas e garantir a sustentabilidade dos sistemas florestais do Mediterrâneo.

Este trabalho foi desenvolvido no âmbito do Projeto CORKNUT – Florestas mistas de sobreiro e pinheiro-manso: gestão para valorização dos produtos, promoção da biodiversidade e prevenção de fogos florestais, referência PCIF/MOS/0012/2019 coordenado por Alexandra Correia do INIAV, no âmbito do doutoramento de Inês Ramires do CEF/ISA sob orientação de Professora Manuela Branco.

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