Novo estudo quer transformar a avaliação do risco de incêndios florestais em Portugal
Um estudo recentemente apresentado pelo Impact Center for Climate Change (ICCC), da Fidelidade, promete alterar profundamente a forma como Portugal avalia e gere o risco de incêndios florestais. O projeto envolve mais de 20 cientistas de cinco centros de investigação e pretende ultrapassar falhas identificadas nos sistemas atuais de mapeamento.
Coordenado pelos professores catedráticos José Miguel Cardoso Pereira (Instituto Superior de Agronomia) e Domingos Xavier Viegas (Universidade de Coimbra), o trabalho parte de uma crítica ao modelo estrutural atualmente utilizado, que se foca quase exclusivamente na perigosidade dos incêndios. Os investigadores defendem que os mapas de risco existentes ignoram cenários de probabilidade, alterações no uso do solo, projeções climáticas e a vulnerabilidade socio-económica das populações expostas.
O novo estudo propõe uma abordagem integrada, assente em quatro pilares: perigosidade, exposição, vulnerabilidade e curvas de perda. Durante dois anos e meio, duas equipas vão desenvolver modelos e dados com uma resolução espacial de 100 metros por 100 metros – um nível de detalhe nunca antes alcançado em Portugal.
A primeira equipa será responsável pela avaliação da perigosidade, incluindo simulações do comportamento do fogo, análise da relação entre meteorologia e incêndios e criação de mapas de risco para diferentes cenários climáticos (RCP4.5 e RCP8.5) nos períodos 2011-2040 e 2041-2070. Estes trabalhos permitirão estimar a probabilidade e intensidade dos incêndios, considerando variáveis como clima, ignições e uso do solo.
Este grupo irá ainda mapear a exposição e vulnerabilidade de edifícios, atividades económicas, infraestruturas críticas, florestas e população, tanto no presente como no futuro. Entre as ferramentas previstas estão um índice de vulnerabilidade social e uma matriz de vulnerabilidade económica para setores rurais como agricultura, pastorícia e silvicultura. Segundo José Miguel Cardoso Pereira, a inovação passa pela integração da vulnerabilidade ao nível dos edifícios individuais e das comunidades, com recurso a inquéritos, observações no terreno e análises laboratoriais.
A segunda equipa irá focar-se no mapeamento e comunicação dos riscos, avaliando perdas potenciais em habitações e atividades rurais em oito cenários futuros. Também ficará responsável por estimar custos de reparação de edifícios afetados e por divulgar os resultados através de artigos científicos, eventos públicos e relatórios técnicos.
Os coordenadores sublinham a relevância do projeto num contexto de crescente exposição de Portugal a incêndios rurais, tendência que deverá agravar-se com as alterações climáticas. Os resultados esperados deverão apoiar a gestão integrada do território, a definição de políticas públicas e a tomada de decisão por parte de entidades públicas e privadas. No setor segurador, prevê-se que a iniciativa ajude a melhorar processos de avaliação e tarifação do risco, contribuindo para reduzir o “protection gap” – a diferença entre perdas económicas totais e perdas cobertas por seguros.